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Do Tempo das Descobertas: "Sem Título"

Domingo, 28.02.10

 

Do Jardim de Micróbios, este post do John, Sem Título. Gosto muito das suas análises literárias e cinematográficas, sempre ousadas e inovadoras. Com personagens complexas, sombrias e inquietantes. Desta vez é o Dracula. Nem mais. Nunca me aventurei nestas leituras sobre as criaturas da noite, mas ainda vi o Dracula do Francis Ford Coppola com um magnífico Gary Oldman talhadinho para o papel. Já conta, não acham?

 

 

Sem Título

 

Invejo as pessoas - os escritores, se quiserem - que têm a capacidade de escrever contos. Contos no sentido de shortstories, uma narrativa de poucas páginas, coerente, com princípio, meio e fim, e capaz de de agarrar o leitor. Eu, por experiência, sei que não consigo: tentei várias vezes, mas mas ficções que crio tendem a crescer bastante, a expandir-se para além dos limites que lhes atribuo. Não sei ser sucinto, o que também é capaz de explicar o meu problema com a escrita de títulos. No que a contos diz respeito, o melhor que consegui foi um conto, escrito há oito anos, com nove páginas (com espaçamento de 1,5 linhas), que fazendo parte de uma história maior, funciona bem sozinho. Mas foi isto. Sobraram alguns proto-contos inacabados que continuam na gaveta, passe a expressão (hoje em dia nenhum escritor tem "gaveta" ou "baú", não no sentido de Tolkien, por exemplo; uma pasta no ambiente de trabalho do portátil serve perfeitamente), e os vários projectos de coisas maiores que fui desenvolvendo ao longo dos anos e que jamais serão concluídos. Não é da minha natureza acabar o que quer que seja; e há dias em que as sinopses que escrevo (sou muito bom a fazer sinopses das minhas próprias histórias) parecem-me ser suficientes.

Isto ocorreu-me quando ontem li um conto muito pequeno e muito simples de Bram Stoker intitulado Dracula's Guest, que me maravilhou quase tanto como a obra-prima do velho Stoker, Dracula, cuja leitura também concluí ontem. Ao conto primeiro: Dracula's Guest é uma narrativa tão curta que é difícil perceber como pode ser tão boa. As descrições, enfim, são um assombro, revelando a enorme capacidade de Stoker para, e perdoem-me o recurso ao inglês, establish mood (mood, como se sabe, é uma palavra intraduzível) e conduzir o leitor a um clímax improvável e francamente arrepiante. E são deixadas por resolver pontas soltas em quantidade suficiente para o leitor se entreter.

Sobre Dracula: lê-se o primeiro capítulo e percebe-se o motivo pelo qual esta obra, mais do que ser considerada um clássico da literatura fantástica/gótica/de terror, é um clássico da literatura em geral. O leque de personagens é fantástico - de Jonathan Harker a John Seward, de Mina Murray a Abraham Van Helsing, de Renfield ao próprio Conde Drácula - e a estrutura narrativa é do melhor que já encontrei em livro. A narrativa é epistolar, composta por passagens dos diários e por memorandos das várias personagens, juntamente com telegramas ou alguns artigos de jornal. Parece aborrecido, mas funciona surpreendentemente bem, dado à leitura um ritmo único, que contribui em larga medida para a atmosfera sombria que Stoker concebeu (tal como as suas vivas descrições). Há passagens nas quais é impossível não sentir um arrepio, ou pelo menos uma vaga sensação de desconforto - mas é igualmente impossível colocar o livro de lado. Exemplo disso é a descoberta, por Harker, das saídas nocturnas de Drácula; ou as passagens que dão conta do delírio sonâmbulo de Lucy (para não mencionar passagens que denunciem demasiado o curso da história).

Dracula é leitura que recomendo: numa época em que os vampiros são tão maltratados, vale muito a pena ir aos clássicos - talvez ao clássico maior - e compreender o motivo pelo qual estas criaturas da noite inspiraram tanta literatura (e cinema) ao longo das décadas. E o motivo pelo qual continuarão a fazer parte dos mais tradicionais cânones dos géneros fantásticos, quando a actual febre adolescente passar por fim.

john  "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:46








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