Do Tempo das Descobertas: "Sem Título"
Do Jardim de Micróbios, este post do John, Sem Título. Gosto muito das suas análises literárias e cinematográficas, sempre ousadas e inovadoras. Com personagens complexas, sombrias e inquietantes. Desta vez é o Dracula. Nem mais. Nunca me aventurei nestas leituras sobre as criaturas da noite, mas ainda vi o Dracula do Francis Ford Coppola com um magnífico Gary Oldman talhadinho para o papel. Já conta, não acham?
" Sem Título
Isto ocorreu-me quando ontem li um conto muito pequeno e muito simples de Bram Stoker intitulado Dracula's Guest, que me maravilhou quase tanto como a obra-prima do velho Stoker, Dracula, cuja leitura também concluí ontem. Ao conto primeiro: Dracula's Guest é uma narrativa tão curta que é difícil perceber como pode ser tão boa. As descrições, enfim, são um assombro, revelando a enorme capacidade de Stoker para, e perdoem-me o recurso ao inglês, establish mood (mood, como se sabe, é uma palavra intraduzível) e conduzir o leitor a um clímax improvável e francamente arrepiante. E são deixadas por resolver pontas soltas em quantidade suficiente para o leitor se entreter.
Sobre Dracula: lê-se o primeiro capítulo e percebe-se o motivo pelo qual esta obra, mais do que ser considerada um clássico da literatura fantástica/gótica/de terror, é um clássico da literatura em geral. O leque de personagens é fantástico - de Jonathan Harker a John Seward, de Mina Murray a Abraham Van Helsing, de Renfield ao próprio Conde Drácula - e a estrutura narrativa é do melhor que já encontrei em livro. A narrativa é epistolar, composta por passagens dos diários e por memorandos das várias personagens, juntamente com telegramas ou alguns artigos de jornal. Parece aborrecido, mas funciona surpreendentemente bem, dado à leitura um ritmo único, que contribui em larga medida para a atmosfera sombria que Stoker concebeu (tal como as suas vivas descrições). Há passagens nas quais é impossível não sentir um arrepio, ou pelo menos uma vaga sensação de desconforto - mas é igualmente impossível colocar o livro de lado. Exemplo disso é a descoberta, por Harker, das saídas nocturnas de Drácula; ou as passagens que dão conta do delírio sonâmbulo de Lucy (para não mencionar passagens que denunciem demasiado o curso da história).
Dracula é leitura que recomendo: numa época em que os vampiros são tão maltratados, vale muito a pena ir aos clássicos - talvez ao clássico maior - e compreender o motivo pelo qual estas criaturas da noite inspiraram tanta literatura (e cinema) ao longo das décadas. E o motivo pelo qual continuarão a fazer parte dos mais tradicionais cânones dos géneros fantásticos, quando a actual febre adolescente passar por fim.
john "
